Jamila Mafra
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17/07/2018 12h47
Páginas de Um Sonho

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ENCONTRO

Aquela manhã de inverno mudou para sempre o meu destino. Há coisas que não são possíveis de explicar. Há tempos eu ouvia falar que minha irmã mais nova, a Paloma, tinha um amigo gay na escola. Eles cursaram juntos o último ano do Ensino Médio.
Confesso que às vezes eu até achava engraçadas as histórias que ela me contava sobre as aventuras que vivia com esse tal Diego Ricardo. Na ocasião, ele acabara de completar dezoito anos, era alto, magro, cabelos pretos, moreno claro, sorriso lindo!
Geralmente os gays são pessoas divertidas e entusiasmadas, são sensíveis e entendem a alma feminina. São apaixonantes e não tem jeito!
Naquele mês de julho eu visitava meus pais Valéria e Joaquim. Era meu período de férias do trabalho e do último ano da faculdade de Letras, a qual eu cursava no período noturno, na Universidade de São Paulo. Durante o dia eu lecionava Língua Portuguesa e Inglesa como professora estagiária no colégio particular Dom Giovanni, no centro da capital paulista.
Meus poucos vinte e um anos ainda não eram suficientes para que eu entendesse os caminhos pelos quais a vida estava me levando.
O frio do sul brasileiro congelava até os ossos, a cidade de Florianópolis tinha mínimas de 0ºC. Naquele momento, usávamos casacos de lã, sobretudos, meias, e do lado de fora até cachecol e luvas.
Diego Ricardo entrou pela porta da sala. Eu estava com a Paloma, sentada no sofá. Amávamos assistir a DVDs de clipes de cantores internacionais.
— Joice! Olha quem chegou! Meu amigo que é um luxo! – Paloma exclamou e já se levantou, indo ao encontro do amigo.
Ela se pendurou no pescoço do Diego e deu-lhe um beijo estalado no rosto.
— Diego, essa é a Joice, minha irmã de São Paulo. Ela está passando uns dias de férias aqui conosco – disse ela, sorridente.
— Oi, Joice! Muito prazer! Sua irmã fala muito de você. – Diego me lançou o sorriso mais lindo que recebi naquele dia.
— Oi, Diego. O prazer é meu. A Paloma também fala muito de você. Eu estava curiosa pra te conhecer. Juro que sim.
— Espero que ela fale bem.
— Ela me conta as aventuras que vocês vivem juntos. Confesso que até senti inveja de vocês. Queria ter um amigo assim, com quem eu pudesse viver tantas aventuras.
Em menos de trinta minutos de conversa, o Diego já me perguntou se eu tinha namorado.
— Não, eu não tenho – respondi sem graça.
— Jura? Você é uma mulher tão bonita e inteligente. Como pode não ter namorado?
— Pra você ver como as coisas são difíceis hoje em dia – respondi, em tom de desesperança.
Ele sorriu.
Eu não alimentava ilusões de um amor de conto de fadas, eram apenas sonhos.
O Diego ficou encantado por saber que eu estudava Letras e escrevia. Contei-lhe algumas de minhas histórias. Não demorou muito e, durante o resto daquele dia, ele já estava como que hipnotizado, sentado ao meu lado, me olhando, prestando atenção em cada palavra que saía da minha boca.
Tivemos uma afinidade imediata. Foi como se já nos conhecêssemos há muito tempo, há muitos anos, algo difícil de explicar com palavras.
Logo ficaria tudo claro. No fim, tudo ficou parecido com aquela música do Bee Gees que diz “Eu comecei uma piada que fez o mundo inteiro chorar, mas eu não vi que a piada era eu. Eu comecei a chorar, o que fez o mundo inteiro rir.  Ah, se eu apenas tivesse visto que a piada era eu, que a piada era eu.”
Meu maior defeito era ser sentimental demais, romântica em excesso. Qualquer sorriso, elogio ou abraço, já me fazia sonhar alto, enxergar possibilidades que as pessoas comuns talvez nem cogitassem, me faziam fantasiar romances, cenas improváveis! Não acredito que fosse carência, até porque sempre vivi muito bem sozinha, e até preferia assim.
Quando era criança, eu sentia uma compaixão extrema e perturbadora toda vez que via alguém sem um braço, sem uma perna ou na cadeira de rodas. Eu começava a chorar e me perguntava o que a pessoa tinha feito de errado para merecer algo tão ruim como aquilo. Mas a minha mente infantil ainda não entendia que essa era a realidade da vida e do mundo.
O único problema foi que a vontade de me isolar do mundo e de evitar relações que me machucassem não deu muito certo. Para dizer a verdade, não deu nada certo. Pior ainda eram as rejeições e críticas que também tinham um peso enorme no meu coração dilacerado pelo romantismo.
As coisas boas e ruins me feriam do mesmo jeito, com a mesma intensidade. As boas porque eu tinha medo de perdê-las, e as ruins porque eu temia que nunca acabassem.
No final das contas, meu receio tinha total fundamento. As coisas boas terminaram, outras vieram em seu lugar, mas a verdade é que os momentos nunca se repetem. E quanto às dores, estas são constantes. Faz parte da vida chorar, superar e seguir.
As pernas exigem que caminhemos mesmo sem vontade. Ainda que não queiramos, os olhos se abrem depois que o sol nasce, forçando-nos a abandonar a cegueira vinda da escuridão. Enfim, a gente sempre acaba encontrando um jeito de viver sem alguém que amamos ou sem aquilo que tanto desejamos, mesmo que seja comendo muito chocolate.
 Os sorrisos mudam, os corações mudam, as ilusões mudam, os momentos mudam o tempo todo, e por mais que eu quisesse congelar dentro de uma caixa tudo que eu mais desejei, não seria possível.


 


Publicado por Jamila Mafra em 17/07/2018 às 12h47
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